Dossiê Cinema e Colonialismo - Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (São Paulo, online). v. 13 n. 1 (2024): Rebeca 25
- Bárbara Bergamaschi
- 1 de jul. de 2024
- 3 min de leitura
Organizadoras:
Bárbara Bergamaschi–Universidade Nova de Lisboa, Portugal
Bruna Carolina Carvalho–Universidade do Porto, Portugal
Michelle Sales–Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Victa de Carvalho–Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Um dos textos desta edição (Andermann, 2024) relembra a morna “Sodade”, canção composta nos anos 1950 por Armando Soares: “Quem te mostrou esse longo caminho? Quem te mostrou esse longo caminho? Esse caminho para São Tomé?”, indaga os primeiros versos, em crioulocabo-verdiano, emendados ao refrão: “Saudade, saudade, saudade, da minha terra de São Nicolau”. “Sodade” canta a despedida de um kontratadu1, estatuto comum aos emigrantes econômicos de Cabo Verde que partiam do cais de São Nicolau em direção à Europa, à América e a outros países da África submetidos a um acordo de trabalho análogo à escravidão. Personagem presente nos filmes de Pedro Costa, okontratadu é uma das várias persistências da sintomatologia colonial –com reverberações não somente econômicas e territoriais, mas também linguísticas, culturais e subjetivas.
Todo povo colonizado”, escreveu Frantz Fanon já em 1952, “isto é, todo povo em cujo seio se originou um complexo de inferioridade em decorrência do sepultamento da originalidade cultural local, se vê confrontado com a linguagem da nação civilizadora, querdizer, da cultura metropolitana” (Fanon, 2020, p. 32). A linguagem cinematográfica não escapou dos conflitos e apagamentos decorrentes da invasão de territórios, da exploração econômica, das guerras, de genocídios e extermínios promovidos pelos empreendimentos coloniais ao longo da história. Se, por um lado, o “complexo de inferioridade” enfatizado por Fanon impulsionou criações comprometidas com o reforço estético e discursivo do colonizador, por outro, também cineastas tensionaram a dominação cultural metropolitana e suas consequências para produzir contradiscursos e inventar outras estéticas e possibilidades de resistência.
Antes de o leitor avançar pelos artigos, resenhas e ensaios reunidos sob o título Cinema e Colonialismo, propomos um breve recuo acerca do colonialismoenquanto conceito. Esta introdução apresenta, no entanto, apenas algumas abordagens para enfrentar esse complexo tema. Outras perspectivas serão oferecidas pelos textos deste dossiê que, esperamos, contribuirão para o debate em torno do colonialismo no âmbito dos estudos cinematográficos. Claro, sem nunca esgotar suas tantas possibilidades de leitura.
De partida, vale distinguir colonialismo de colonialidade. Grosso modo, o colonialismo é como ficou conhecida a experiência histórica nas Américas, na África e na Ásia entre os séculos XIV e XVII durante o período das chamadas grandes navegações e do mercantilismo. Já a colonialidade seria uma lógica de poder que extrapola o supracitado período histórico. Refere-se à forma pela qual o colonialismo funciona enquanto política de hierarquizações, produzindo relações de poder. Portanto, como experiência, a colonialidade engendra práticas e lógicas internas de funcionamento que perduram para além do período colonial, mesmo após a independência das colônias. São os processos de endocolonização que ocorrem em todo o Sul Global.
Nesse sentido, o Sul seria uma metáfora e não uma localização geográfica, representaria todas as regiões do mundo submetidas ao colonialismo europeu e que não atingiram os mesmos níveis de desenvolvimento econômico de suas antigas metrópoles (que se autoproclamam “a régua” de referência para todo o Globo). O Sul e o Norte, no entanto, não são homogêneos: há grupos de negros, imigrantes, indígenas e outras minorias que transitam e ocupam os territórios hegemônicos, assim como existem, nos países do Sul, “pequenas Europas”, ilhas de influência compostas pelas elites locais, beneficiárias e herdeiras, até hoje, da dominação colonial e capitalista do passado.
(...)
Ler Dossiê na Integra aqui: https://rebeca.socine.org.br/1/issue/view/31


Comentários